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Não mate o mensageiro

Administradores do Telegram publicam texto sobre criptografia, segurança das mensagens que você envia no aplicativo, pressão de governos, terrorismo.

Por Markus Ra – Responsável por Suporte, Mídia e Tudo o mais do Telegram

No rescaldo de um recente ataque terrorista, funcionários de governos ao redor do mundo renovaram suas solicitações de backdoors em aplicativos de mensagens criptografadas de ponta a ponta. [Backdoor (em português porta dos fundos, porta de serviço) é um método, muitas vezes secreto, para contornar a autenticação obrigatória para acessar um produto, um sistema de computação, um software de criptografia. No caso desse artigo, seriam usadas para permitir ler em formato de texto documentos criptografados. Para, em uma palavra, decifrá-los.] Ao mesmo tempo, os jornalistas cometeram o habitual monte de erros na cobertura do tema. Usuários do Telegram supresos pelas informações incorretas nos enviaram muitas perguntas. Então vamos deixar algumas coisas claras.

Como os dados de meu Telegram são protegidos?

Os Chats Secretos do Telegram usam criptografia fim-a-fim, o que significa que ninguém, Telegram incluído, pode decifrar os dados trocados por quem usa essa comunicação.

Para proteger os dados não cobertos pela criptografia fim-a-fim, o Telegram usa uma infraestrutura distribuída. Os dados do Cloud Chat são armazanados em diversos data centers ao redor do mundo, regidos por diferentes entidades legais espalhadas por diferentes juridições. As chaves de descriptografia relevantes são separadas em várias partes e nunca são guardadas no mesmo lgar em que se encontram os dados protegidos por elas. Assim, são necessárias muitas ordens judiciais, de diferentes jurisdições, para forçar o Telegram a entregar algum dado.

Graças a esta infraestrutura nenhum governo ou bloco de países que compartilhem as mesmas ideias podem quebrar a privacidade ou impedir a liberdade de expressão dos usuários. Telegram só pode ser obrigado a entregar dados se um assunto for grave e universal o suficiente para passar pelo escrutínio de vários sistemas legais ao redor do mundo.

Até hoje, o Telegram não cedeu nenhum byte de dados de seus usuários para terceiras partes, inclusive governos.

Mas e os terroristas?

Agora vamos dar uma olhada nos usos que organizações terroristas podem fazer de aplicativos de mensagens e, mais importante, o que pode ser feito para contê-los.

Mensagens privadas

O que as pessoas mais temem é a possibilidade de terrroristas usarem aplicativos de criptografia para trocar mensagens a fim de preparar e coordenar seus ataques.

A ideia de simplesmente banir a criptografia fim-a-fim para impedir que terroristas troquem mensagens codificadas pode realmente parecer tentadora se você não pensar com calma a respeito. Mas a triste verdade é que isso não vai adiantar nada. Terroristas são preparados para enfrentar enormes dificuldades a fim de assegurar que suas comunicações sejam seguras e que seus objetivos sejam alcançados, até mesmo a dificuldade definitiva de precisar morrer. Então, se algum tipo de banimento ou de backdoor for adotado para os aplicativos de mensagem, eles vão rapidamente adotar outras práticas:

  1. Desenvolver seus próprios aplicativos. A tecnologia para criar aplicações de mensagens criptografadas é de conhecimento público. Qualquer pessoa, hoje, pode fazer um serviço de mensagens criptografadas fim-a-fim. Essas aplicações provavelmente não terão muitos recursos brilhantes e deverão ser instaladas manualmente, evitando os serviços Apple ou Google Store, mas vão funcionar. Há boatos de que participantes do ISIS têm seu próprio aplicativo desde janeiro de 2016.
  2. Usar linguagem codificada. Esteganografia é uma palavra chique para o método de esconder informações em coisas à vista de todos. Você pode usar qualquer canal público ou monitorado se somente você e a pessoa a quem você quiser enviar uma mensagem souberem o que significa “Tio David vai fazer comprar amanhã”.
  3. Usar outras formas de comunicação. Você, como um usuário comum, nunca vai querer comprar um celular, fazer uma chamada, enviar uma mensagem de text e depois jogá-lo no lixo. Mas foi exatamente desta maneira que os terroristas de Paris se comunicaram para organizar o ataque que causou mais mortes na Europa, até hoje.

Como você pode ver, em muitos casos os terroristas sequer vão precisar mudar seus métodos de comunicação. Eles têm alternativas perfeitamente viáveis aos serviços criptografados existentes. Quem não tem alternativa é você.

Pessoas comuns não estão preparadas para usar aplicações que não fáceis, imagine recorrer a “burner phones” ou linguagens secretas para defender sua privacidade. Assim, a única coisa que backdoors obrigatórios, determinados por governos, podem conseguir é tornar a vigilância em massa possível novamente e expor seus dados privados a hackers ou funcionários públicos corruptos. [1]

Mensagens públicas

Isso não significa que é impossível dar um golpe nos planos dos terroristas. Outro uso fundamental que eles fazem de serviços de comunicação em massa é espalhar sua mensagem e fazer com que o maior número possível de pessoas saibam dos atos que praticam.

É por isso que todo tipo de organização terrorista aderiu às mídias sociais como Twitter, Facebook e outras para dar publicidade às suas mensagens e ameaças. O Telegram é diferente dos demais serviços de mensagens porque tem Canais – uma ferramenta para enviar mensagens abertas e públicas para audiências ilimitadas. Naturalmente terroristas tentaram usar esta ferramenta para fazer transmissões do ISIS. Mas, como outras redes, Telegram tomou providências para expulsá-los dessa plataforma pública.

Canais terroristas ainda surgem – da mesma maneira que em outras redes – mas são denunciados quase imediatamente e fechados em horas, muito antes de conseguirem ampliar sua audiência.

Mesmo assim, independente do esforço feito pelo Telegram e outros serviços, os terroristas têm um aliado poderoso para ajudá-los a disseminar suas mensagens horríveis.

Pintura em preto

O terrorismo é possível não por causa das armas que usa nem por causa das mensagens criptografadas que trocam – terroristas têm uma história rica em improvisações em ambos os casos. Mas há um elemento indispensável para seu poder: a mídia. [2] Não é surpreendente que as organizações terroristas invistam muito para ampliar a cobertura jornalística de seus atos.

É por isso que quando se olha para os números, qualquer outra causa de morte e destruição (exceto talvez detonar máquinas de venda automática e coisas parecidas) parece minúscula diante de atos de terrorismo, por mais que seja cruel e injusta.

Câncer, doenças cardíacas, acidentes rodoviários e sabão no chão do banheiro matam mais pessoas, diariamente, do que terroristas, anualmente.

Então a tarefa principal de um terrorista é convencer você de que seus atos selvagens são mais relevantes do que cerca de 150.000 mortes por outras causas que acontecem todos os dias. Precisam distorcer nossa percepção para fazer com que nos sintamos ameaçados por eles e não pela miríade de outros perigos aos quais estamos realmente expostos.

Infelizmente a mídia empresta, de boa vontade, sua lente de aumento aos terroristas. Afinal notícias perturbadoras geram visualizações e atraem dólares de publicidade – especialmente notícias com fotografias emocionantes de vítimas. Assim o terror se espalha nas asas de uma imprensa ávida por cliques e estimulada por políticos que querem ampliar seu poder e diminuir sua obrigação de prestar contas à sociedade.

Derrotar o medo deles

Não podemos esquecer que organizações terroristas querem antes de tudo e principalmente criar medo em nós. Vão tentar de todas as maneiras nos fazer sentir inseguros em nossas cidades e em nossas casas. Mas somos muitos e eles são poucos, com toda a dor que causam às pessoas atingidas, para virar mais que uma gota no oceano dos perigos mundanos com os quais aprendemos a conviver e pelos quais navegamos todos os dias.

Não podemos sentir pânico e nos tornar presas dos muitos poderes que usam o medo do terrorismo para alcançar seus próprios objetivos egoístas. Em vez disso, precisamos dar apoio e consolo às vítimas e suas famílias – especialmente quando são próximas de nós, por mais improvável que isso seja.

Notas

[1] Não é possível criar um backdoor que seja usado somente por “mocinhos”. Se um serviço tiver um backdoor é apenas uma questão de tempo até que hackers descubram uma forma não oficial de usar o backdoor para obter seus dados. E se você vive na América do Sul, na Rússia, na China ou muitas outras regiões pode descobrir que o uso oficial desse backdor pode ser bem diferente do que em sociedades onde o Estado de Direito é maior.

[2] O terrorismo não existia na sua forma atual até meados do século 19, quando as redes de jornais impressos e telégrafos centralizaram os fluxos de informação do mundo pela primeira vez na história.

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