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Facebook: grande demais para deletar

Por que as pessoas que são vítimas de censura no Facebook não conseguem deixar de usá-lo?
Por Emily Dreyfuss, na Wired*

Na quarta-feira, dia 28 de junho, um dia depois de o Facebook anunciar que dois bilhões de pessoas usam seu serviço todo mês, a ProPublica publicou uma investigação bombástica sobre as diretrizes de censura de discursos de ódio da empresa. A reportagem inclui documentos revelando que as regras do Facebook muitas vezes acabam por proteger os direitos de poderosos em detrimento daqueles que não têm poder. Essas duas revelações são inextricavelmente entrelaçadas, cada uma habilitando e exigindo a outra.

O Facebook é a maior rede social do planeta – mais de um quarto da raça humana usa seu site – precisamente porque faz a censura e curadoria ativa dos conteúdos postados por sua comunidade e segue leis locais que permitem sua atuação mesmo em países com regimes opressivos. E porque é tão grande, as pessoas que mais precisam de uma plataforma de expressão online não podem se dar ao luxo de não estar nele – mesmo que isso signifique se submeter a uma censura aparentemente arbitrária.

Este é o efeito de rede em ação. Quanto mais pessoas usam o Facebook, mais seu valor aumenta, exponencialmente. Isso vale especialmente para pessoas que não possuem outras redes nas quais compartilhar informações — pessoas como dissidentes, ativistas ou grupos minoritários. Agora que o Facebook é a maior rede da Terra, o preço que as pessoas pagam por estar fora dela é enorme.

“O Facebook não gosta de se definir como um monopólio, porque então teria que se submeter a regulações, mas sob muitas perspectivas é um ator dominante”, diz Steven Murdoch, pesquisador do University College de Londres. Se estamos falando de um monopólio empresarial que poderia ser multado pela União Européia é uma questão para outro momento. Mas uma coisa é clara: o Facebook é certamente um monopólio social. “Para conseguir audiência, que é o que as pessoas costumam querer se são, digamos, ativistas, elas precisam se envolver com o jogador dominante. E este é o Facebook “, diz Murdoch. O segundo site de mídia social mais popular em todo o mundo, WhatsApp, também é de propriedade do Facebook. O site de mídia social mais popular nos Estados Unidos, que não pertença ao Facebook, é o Twitter, que tem apenas 328 milhões de usuários ativos. Se você deseja que sua mensagem atinja a maioria das pessoas, é melhor publicar no Facebook.

Regras para todo mundo

Para ficar tão grande, o Facebook tem que ser tudo para todos. “A desconexão fundamental é que eles querem aplicar globalmente regras para proteger grupos de pessoas cujo status e relações variam de local para local”, diz Judith Donath, especialista em comunidades online do Berkman Klein Center for Internet and Society.

Satisfazer a maioria é a solução de compromisso que o Facebook adota para ser um lugar seguro o suficiente para atrair bilhões de pessoas. “A conveniência e rigidez do Facebook são o que o deixa tão grande”, diz Donath. Um site como o Twitter, que tem regras muito mais frouxas sobre discursos de ódio, nunca será tão grande quanto o Facebook porque algumas pessoas acham isso inseguro ou ofensivo. Na verdade, foi esta característica “apertada”, como observa a ProPublica, que permitiu ao Facebook superar seu primeiro rival, o MySpace, que permitia que mais conteúdo ofensivo proliferasse em seu site.

De acordo com documentos internos do Facebook, a empresa usa uma fórmula simples para sistematizar a censura do discurso de ódio e fazer com que bilhões de pessoas se sintam seguras: “categoria protegida + ataque = discurso de ódio”. As categorias protegidas incluem temas como raça e gênero, mas não idade . Se alguém ataca uma pessoas que se encontram em um subconjunto de uma categoria protegida, as regras do Facebook parecem não mais tratá-la como protegidas. Isso resulta em inconsistências estranhas e culturalmente ignorantes, como a revelação de que os “homens brancos” estão protegidos de discurso de ódio, mas “crianças negras” não são.

Quando isso veio à tona quarta-feira, as pessoas nas mídias sociais rapidamente expressaram sua indignação, mas poucos ficaram surpresas. Embora o Facebook não seja transparente sobre suas políticas, as pessoas que foram censuradas de maneiras aparentemente arbitrárias percebem isso há anos. Uma das pessoas que o Facebook censurou e que ProPublica destacou foi a poeta e ativista do Black Lives Matter, Didi Delgado, que no início deste ano publicou um artigo intitulado “Mark Zuckerberg Detesta Pessoas Negras”, no qual ela discutiu detalhadamente como as diretrizes do Facebook penalizavam ela e seus colegas ativistas.

“Eu, como muitos ativistas negros, preciso manter duas contas – uma principal e uma de backup. É irritante e entediante, mas considero como um imposto-sobre-os-negros”, escreveu Delgado. “Uma vez que os organizadores do Black Lives Matter são mais propensos a ter o seu conteúdo marcado e removido por ‘violar os padrões da comunidade’, tivemos que encontrar soluções para sustentar a nossa presença e engajamento online“.

Delgado está presa na plataforma que diz que a odeia precisamente para manter esta presença online. Mesmo que ela use outras redes para chegar ao seu público – Medium, por exemplo, e Twitter, e Patreon – , não eliminou sua conta no Facebook. Nem ela nem todas as outras pessoas que a ProPublica encontrou e que foram alvo das diretrizes do Facebook. Nem Damon Young, um escritor que diz que sua conta foi suspensa em uma postagem sobre o racismo depois que o policial que atirou em Philando Castile foi absolvido. Quando há uma competição robusta – digamos, Uber e Lyft no mercado de viagens – você pode excluir uma conta em protesto contra as políticas de uma empresa e usar a outra. Isso não acontece com o Facebook.

Em vez isso, as pessoas esperam que o Facebook reative suas contas e voltam a postar. Elas operam várias contas, como Delgado faz, sabendo que o Facebook pode suspender uma delas a qualquer momento.

As pessoas precisam demais do Facebook

Murdoch diz que as pessoas muitas vezes acham que qualquer um que discorde das políticas do Facebook é livre para deixá-lo. “Mas essa é uma posição privilegiada”, diz, só possível para pessoas com redes de comunicação alternativas. Para uma grande parte das pessoas no Facebook — e especialmente para pessoas cujo trabalho é compartilhar informações — desistir d a plataforma significa serem menos eficazes no que fazem.

“Sair do Facebook é sempre uma opção — se você não se importa deixar a maior audiência da Terra para trás, para não mencionar a plataforma onde a maioria de seus amigos estão. É um compromisso muito difícil, particularmente para ativistas como os discutidos na matéria da ProPublica, que precisam ter acesso ao maior público possível para fazer seu trabalho “, diz JM Berger, do Centro Internacional de Contraterrorismo – Haia, que estuda como as pessoas usam a internet.

O Facebook tem todo o poder nesses relacionamentos. Quando o site se tornou global, depois de deixar as universidades de sua origem, o Facebook capacitou as pessoas a contar seu lado da história, para que suas vozes fossem ouvidas fora dos sistemas convencionais que de outra forma os silenciariam. A mídia comum não se preocupa com sua situação? Poste diretamente no Facebook. O regime ditador não permitirá que você fale sobre sua fome, frustração e opressão? Poste diretamente no Facebook. O Facebook foi, de certa forma, uma maneira de fugir da censura. Mas, à medida que cresce, também está se tornando uma ferramenta de censura que obriga as pessoas a encontrar meios de contorná-la .

Uma maneira de fazer isso, agora que as diretrizes foram tornadas públicas, é escolher suas palavras com cuidado. De acordo com as diretrizes, o Facebook considerará discurso de ódio se você escrever “pessoas brancas enchem o saco”, mas não se você escrever “pessoas brancas na internet enchem o saco”. Outra opção é postar em sites menores. Um tuíte pode não chegar ao público de dois bilhões de pessoas do Facebook, mas no Twitter você pode usar suas próprias palavras.

*Traduzido por Patrícia Cornils

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