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Como as campanhas eleitorais sabem de nossos segredos mais íntimos

A Privacy International, uma organização não governamental do Reino Unido, publicou no dia 30 de agosto uma série de textos chamada Manipulação Invisível: Dez Formas de Uso de Nossos Dados Contra Nós. A ONG luta pelo direito à privacidade e, neste panorama, traz estudos de caso sobre uso de nossos dados pessoais por empresas financeiras, campanhas eleitorais, carros conectados, aplicações móveis, soluções de “cidades inteligentes”, redes gratuitas de wi-fi.

Traduzimos um desses estudos, sobre campanhas eleitorais. O texto é principalmente sobre campanhas nos Estados Unidos, mas decidimos traduzi-lo por motivos de: em 2018 pode haver eleições diretas no Brasil e informações sobre nós serão usadas como nunca antes na história deste país para tentar direcionar nossas escolhas políticas. É bom saber mais como isso funciona. Precisamos resguardar a autonomia de nossas escolhas — e também exigir que isso seja regulamentado, neste país que não tem uma Lei de Proteção de Dados Pessoais. Mas isso é outra parte do mesmo assunto, chama-se Seus Dados São Você, e você pode saber mais a respeito aqui. Segue o texto:

 

Estudo de Caso: Perfis e eleições – Como as campanhas eleitorais sabem

de nossos segredos mais íntimos

As campanhas eleitorais em todo o mundo transformaram-se em sofisticadas operações de dados. Nos Estados Unidos, os candidatos cristãos evangélicos contactam cristãos que não se registraram para votar e usam um sistema de pontuação para calcular quem nesses milhões de possíveis eleitores leva sua fé a sério. Já em 2008, a campanha de Obama realizou uma operação de dados para atribuir a todos os eleitores nos EUA um par de pontuações, a fim de prever a probabilidade de cada um votar e se eles o apoiaram ou não. A campanha confiava tanto nessas previsões que o consultor de Obama, Ken Strasma, foi citado se gabando de que: “A gente sabia quem … em quem as pessoas iriam votar antes mesmo delas se decidirem.” Será que a segmentação de eleitores foi longe demais?

O que aconteceu?
Campanhas políticas usam dados para tomar uma série de decisões: onde fazer comícios, em quais estados ou eleitorado focar o uso de seus recursos, como personalizar a comunicação e a propaganda para apoiadores, eleitores indecidos, não-apoiadores.

Campanhas baseadas em dados não são algo novo. Há décadas, campanhas usam e refinam a segmentação dos eleitores, analisando o histórico dos votos, afiliação religiosa, dados demográficos, assinaturas de revistas e hábitos de compra para entender que temas e valores movem quais pessoas. [Esta segmentação é hoje chamada de profiling, perfilamento, ou a arte de fazer perfis de pessoas a partir de imensos volumes de dados.]

O que é novidade, no entanto, é a granularidade dos dados à disposição das campanhas. O Comitê Nacional do Partido Republicano, por exemplo, dá a todos os seus candidatos acesso gratuito ao “Data Center”, uma ferramenta de consulta e gerenciamento que interage com mais de 300 terabytes de dados sobre 200 milhões de eleitores, incluindo 7.700.545.385 pontos de dados para micro-segmentação. Da mesma forma, a empresa de análise de dados e plataforma de contatos eleitorais i360, financiada pelos irmãos Koch, mantém uma base de dados de mais de 250 milhões de cidadãos e eleitores dos EUA, contendo milhares de informações para fornecer ” o retrato completo de quem eles são, onde vivem, o que fazem e o que está acontecendo ao seu redor”. Junte a isso milhões de endereços de e-mail, números de telefone e outros dados pessoais, como os coletados por meio das doações financeiras, em manifestações e por meio de merchandising. E pronto: as campanhas hoje conhecem os segredos mais íntimos dos eleitores.

Foi neste contexto que Cambridge Analytica, empresa de análise de dados baseada no Reino Unido, explodiu na cena em 2016, depois de revelações de que poderia ter desempenhado um papel importante tanto nas eleições dos EUA quanto no referendo britânico sobre o Brexit. A empresa afirma possuir 5 mil pontos de dados sobre 220 milhões de americanos, constituídos por dados psicológicos retirados do Facebook e cruzados com grande quantidade de informações sobre consumidores, compradas de empresas de mineração de dados.

Empresas de compra e venda de dados (data brokers) e outras companhias de mineração de dados coletam ou obtêm informações sobre indivíduos (seu histórico de navegação, seus dados de localização, quem são seus amigos ou com que frequência você carrega as baterias de seus dispositivos etc.) e, em seguida, usam esses dados para inferir informações adicionais desconhecidas sobre você (o que vai comprar em seguida, sua probabilidade de ser do gênero masculino, as chances de ser conservador, seu estado emocional atual, quão confiável você é, ou se você é heterossexual etc.).

O rastreamento de eleitores não é feito somente on-line. Pouco depois da convenção de Iowa, no início de 2016, o CEO da Dstillery, uma “grande empresa de inteligência de dados”, disse no programa de rádio Marketplace que a empresa havia rastreado 16 mil participantes pelo número de seus telefones e combinado essa informação com seus perfis on-line. A Dstillery conseguiu identificar padrões comportamentais curiosos, como o de que pessoas que gostavam de fazer churrasco ou aparar sua grama votavam esmagadoramente em Trump em Iowa.

Basicamente, empresas como Cambridge Analytica e i360 fazem duas coisas: coletam enormes quantidades de dados sobre indivíduos, usam esses dados para fazer perfis e prever detalhes ainda mais íntimos sobre essas pessas e usam esses perfis e previsões para lhes enviar mensagens políticas personalizadas, como anúncios publicitários em mídias sociais, e para informar as decisões estratégicas da campanha.

Quando campanhas eleitorais podem colher caminhões dados, o próprio contexto da mídia sofre uma transformação radical. Embora a televisão, os jornais e o rádio ainda tenham um papel importante, um mnúmero cada vez maior de pessoas recebem notícias e se informam sobre candidatos pelas redes sociais. Ainda mais importante, essas redes nos mostram o que outras pessoas acham sobre determinadas questões e candidatos.

Os sites de mídias sociais fazem de tudo para parecer plataformas neutras e decididamente diferentes da mídia tradicional na forma de definir agendas e fazer notícias, mas inevitavelmente carregam seus próprios preconceitos. Estes espaços altamente personalizados são otimizados para gerar engajamento e são construídos em torno de publicidade. Desde os algoritmos das timelines até a moderação de postagens, os sites de mídia social moldam o tipo de conteúdo que vemos e a freqüência com que somos expostos a informações ou pessoas das quais discordamos.

Neste ambiente que muda o tempo todo, as campanhas políticas estão micro-segmentando eleitores — para fazer anúncios on-line, chamadas telefônicas ou visitas personalizadas — a fim de mudar seu comportamento. O que as pessoas acham sobre um candidato, em qual político finalmente votam, se decidem votar ou se abster, são coisas moldadas por uma série de fatores. Pesquisas já mostraram que até o clima pode afetar o comportamento dos eleitores. Nossas decisões mais conscientes são influenciadas por processos inconscientes de pensamento, emoções e preconceitos. É exatamente por isso que os esforços de relações públicas comerciais e políticas são cada vez mais focados na criação de perfis baseados em nossa intimidade. Veja o que diz o diretor do Marketing de Anunciantes do YouTube na Google: “as decisões de eleitores costumavam ser tomadas em salas de estar, na frente de televisões. Hoje, são cada vez mais tomadas em micromomentos, em dispositivos móveis. Os micromomentos de uma eleição acontecem quando os eleitores usam um dispositivo eletrônico para se informar sobre um candidato, acontecimento ou tema”.

Qual é o problema?
A forma como os dados são utilizados em eleições e em campanhas políticas é altamente invasiva em termos de privacidade, põe em evidência importantes questões a respeito de segurança e tem o potencial de minar a fé no processo democrático.

As campanhas dependem de dados cuja divulgação, para começar, talvez não tenha sido consentida pelas pessoas. Para criar perfis muito íntimos, os grandes bancos de dados de eleitores também dependem de dados comercialmente disponíveis de corretores de dados ou dados publicamente disponíveis e acessíveis on-line. Isso é especialmente importante quando informações confidenciais, como crenças políticas ou traços de personalidade, são inferidas de dados que não seriam correlacionados se não houvesse esta segmentação. Traços de personalidade, por exemplo, podem ser inferidos pelos gostos expostos nas mídias sociais. O fato de que dados comerciais, registros públicos e todo tipo de informações derivadas são usados em campanhas políticas surpreende a maioria das pessoas.

Há também um componente de segurança na acumulação de dados confidenciais. Os bancos de dados compilados para comunicação política estratégica geralmente contêm informações altamente sensíveis. Tais bancos são pirateados, vazados, roubados ou simplesmente compartilhados com frequência, como demonstra o vazamento acidental, em 2017, de uma base com dados pessoais sobre quase 200 milhões de cidadãos dos EUA. Outra ameaça à segurança é que esses bancos de dados são freqüentemente compartilhados depois que um candidato se retira da disputa ou depois que a eleição acaba. Quase todos os candidatos presidenciais dos EUA em 2016 venderam, alugaram ou emprestaram as informações pessoais de seus apoiadores a outros candidatos, empresas de marketing, instituições de caridade ou empresas privadas.

O perfilamento ou segmentação de eleitores também levanta questões mais fundamentais. O uso de dados nas eleições é apenas a ponta do iceberg em uma economia em que os consumidores estão se tornando cada vez mais o produto e não o comprador. Todo o ecossistema de publicidade (on-line) é organizado em torno do fluxo de dados em tempo real sobre a vida das pessoas e foi construído para modificar o comportamento dessas pessoas com fins lucrativos. As empresas que durante anos acumularam dados pessoais sobre bilhões de pessoas em todo o mundo podem mudar o comportamento real dos indivíduos em escala global.

Qual é a solução?
Estamos caminhando para um mundo onde nossa escova de cabelo terá um microfone e nossa torradeira terá uma câmera; onde os espaços em que nos movemos estarão equipados com sensores e atuadores que tomam decisões em tempo real. Todos esses dispositivos vão gerar, coletar e compartilhar enormes volumes de dados pessoais, que serão usados para fazer julgamentos delicados sobre quem somos e o que vamos fazer a seguir.

O perfilamento de eleitores prospera no acesso sub-regulado a enormes quantidades de dados altamente pessoais — não apenas por campanhas eleitorais. As pessoas deveriam controlar o que é feito com seus dados, quem pode usá-los e para que fins. Além disso, a legislação eleitoral e de campanhas não deve apenas considerar quanto dinheiro indivíduos e empresas doam a candidatos, mas também enxergar os dados como uma nova fonte de poder.

Em toda atividade que gera dados, os indivíduos precisam ter a possibilidade de saber que organizações detêm informações sobre si e quais. A criação de perfis gera inferências e previsões decisivas sobre nossa personalidade, comportamento ou crenças. Por isso, devemos ter acesso a essas inferências e predições a nosso respeito.

Finalmente, bancos de dados sobre eleitores devem ser armazenados em segurança.


E não se esqueça — #SeusDadosSãoVocê.

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