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As disputas de poder que virão com a internet das coisas – Actantes
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As disputas de poder que virão com a internet das coisas

Por Jay Stanley para American Civil Liberties Union

Quando coloco um filme em meu leitor de DVD e tento apertar o fast-forward para pular algumas preliminares irritantes no começo do disco, eu recebo uma mensagem de erro:

“Esta operação é proibida por este disco”

Isto é apenas um aborrecimento, mas é um aborrecimento potencialmente alarmante.

Primeiro, não é “o disco” que está proibindo a minha tentativa de pular os avisos obrigatórios do FBI e a propaganda anti-pirataria de Hollywood. São os estúdios de Hollywood que programaram minha tecnologia para proibir minha “operação”. Este é um excelente exemplo do uso da tecnologia para mostrar o que os marxistas chamam de “fetichismo da mercadoria” – a dissimulação de relações humanas de poder por trás de uma realidade pseudo-objetiva. Marx estava falando de dinheiro e economia, mas aqui a tecnologia é convidada a desempenhar o mesmo papel. A mensagem é: “Não há qualquer jogo de poder acontecendo aqui, é apenas como a tecnologia objetiva funciona!” O que está realmente acontecendo: estúdios de cinema decidiram programar a tecnologia (ou pressionar os fabricantes de hardware a fazê-lo) para tirar o seu controle sobre o seu tempo e o que você assistir e forçá-lo a visualizar o conteúdo que eles controlam, a fim de divulgar seus próprios interesses.

Mais amplamente, este pequeno exemplo irritante destaca as lutas de poder que poderíamos enfrentar à medida que chips vêm saturando o mundo que nos cerca – a tendência muitas vezes chamada de “internet das coisas”.

A questão é como os computadores serão utilizados para impor regras sobre nós. Os computadores são máquinas para processamento de dados, o que podem fazer com grande consistência e regularidade. Com essas qualidades, os computadores realmente carregam uma forte semelhança com outra criação humana muito mais antiga para processamento de regras: burocracias. Como um computador, a função essencial de uma burocracia é receber informações em formulários padronizados, processar os dados de acordo com um conjunto de regras e emitir um resultado ou decisão. Depois que o requerente preenche um formulário, distribui-o internamente, cruza seus pedidos com outras burocracias e, provavelmente, avalia seus méritos de acordo com um conjunto definido de critérios e, em seguida, mostra os resultados. Entram dados, saem decisões.

Nos computadores, portanto, as burocracias se encaixam naturalmente, tirando proveito deles desde o início, mas é interessante pensar como as burocracias usarão a tecnologia ao passo que ela se infiltra em tudo que nos rodeia. Como o exemplo do aparelho de DVD sugere, um perigo é que a internet das coisas permitirá aos tentáculos do poder burocrático das empresas e dos governos penetrar cada vez mais fundo nas fendas de nossas vidas, fazendo cumprir todos os tipos de regras e restrições mesquinhas. Conforme os computadores saturam nossas vidas, as grandes organizações serão constantemente tentadas a usá-los dessa maneira. Uma boa maneira de pensar sobre isto é imaginar que muitos computadores (muitas vezes, nada mais do que chips individuais) podem vir a servir como mini-aparatos burocráticos, permitindo que estas burocracias codifiquem suas regras e distribuam seu poder de formas inconcebíveis anteriormente.

O perigo é que, conforme o “poder da computação” cresce e se espalha, esta permissão pode assumir um significado muito mais sinistro.

Certamente, as operações fundamentais destes computadores continuarão as mesmas: entram dados, saem decisões. A primeira metade da equação significa que a matéria-prima para as decisões tomadas por esses operadores consiste de informações sobre nós, um lembrete de como esta luta pelo poder está intimamente ligada à privacidade – informação e controle são dois lados da mesma moeda. Um dos campos de batalha mais importantes diz respeito à forma como os dispositivos são programados para responder a questões burocráticas tais como ” de que informações precisamos?”, “quais são as informações a que temos direito?”, “quais são as informações relevantes e irrelevantes para nossos processos de aplicação das regras?”, “que informações devem ser repassadas para outras agências?”.

Quais são os outros possíveis exemplos disto além do meu aparelho de DVD? Um deles se refere aos chips de identificação por radiofrequência, que compõem a infra-estrutura perfeita para sistemas de controle de acesso individualizado e determinado por algoritmos. Já se pensa hoje em dia sobre o uso de cartões-chave por hotéis e como um hotel tem muito mais poder sobre chaves deste tipo. Ele agora pode cancelar à distância ou reprogramar as chaves, monitorar o seu uso e programar as regras internas (você pode acessar estes andares nestes momentos, mas não aquelas instalações naqueles momentos, ainda que aquele cara ali possa). Nada disto podia ser feito com uma simples chave de metal.

Outro exemplo do tipo de coisa de que estou falando são os dispositivos de interrupção de partida em carros, que desativam-nos remotamente quando os proprietários não pagam as prestações em dia. A Nissan já teria testado vários sistemas em seus veículos para impedir o funcionamento do carro quando o motorista parece estar bêbado, não utilizando bafômetros (que já estão em uso em alguns estados americanos para infratores da lei seca), mas com base em câmeras, sensores e análises algorítimicas de padrões de direção, na tentativa de detectar embriaguez. A Ford já tem um sistema que permite aos pais impor limites de velocidade em um carro quando ele é conduzido por um adolescente da família. O sistema também pode enviar alertas quando os cintos de segurança não são usados e até mesmo diminuir o volume do som do carro.

Sem dúvida, um pai exercendo controle (um tanto mesquinho) sobre um adolescente em um carro seu não é a mesma coisa que uma empresa ou uma agência exercendo controle sobre um cliente ou um cidadão. Mas as crianças e os jovens são frequentemente os primeiros a estarem sujeitos a regras e controles que mais tarde se espalham de forma mais ampla (juntamente com os presidiários e os imigrantes, seguidos por minorias de baixa renda). A prevenção da direção sob embriaguez é certamente uma coisa boa, mas como muitas tecnologias, são os casos simples que abrem o caminho para que processos parecidos, mas mais controversos venham depois. Será que queremos que cada carro tenham um bafômetro funcionando nele? Que tal um teste para a influência da cada vez menos ilegal maconha enquanto estamos no assunto? Por que não incluir outras drogas ilegais ou remédios de tarja preta? E se o carro está programado para relatar os resultados desses testes para [preencha o espaço com a empresa ou a agência que imaginar]? Cada passo sem dúvida poderia salvar vidas, mas 1) onde isto vai parar? e 2) nós queremos viver nestas circunstâncias?

Pense em carros auto-conduzidos. Por que não forçar que cada carro seja incapaz de violar qualquer limite de velocidade ou regra de trânsito, não importa quão pequena? E enquanto estamos no assunto, devemos proibir a aceleração excessivamente brusca, que desperdiça combustível e é ruim para o meio ambiente? As possibilidades são infinitas. (Por outro lado, se o carro é auto-conduzido, talvez não importa mais se o proprietário está embriagado.)

Tais serão as controvérsias do futuro, replicadas em uma ampla variedade de áreas, conforme o controle minuto a minuto se torna cada vez mais possível e somos confrontados com a possibilidade de alguma instituição exercer tal controle – sobre nós.

E, claro, o exemplo de dirigir embriagado é um lembrete de que uma das coisas que tornam este processo complicado é que o poder de computação pode ser usado para todos os tipos de fins – alguns bons, alguns ruins, alguns ambíguos. Opor-se à propagação de qualquer tecnologia computacional não é mesma coisa que opor-se a qualquer aplicação de energia nuclear ou a qualquer modificação genética de organismos: há o simples fato de muitas aplicações da tecnologia computacional são boas. Então, ao que parece, o que vamos ter é uma luta de poder como numa trincheira de guerra caso a caso sobre quão profundamente queremos deixar os poderes burocráticos do Estado e do mercado mergulhar em nossas vidas.

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